ISAAC

Seus sonhos foram com o boneco de madeira; não houve surpresa alguma nisso, não obstante algum resquício de consciência ter-se indignado com aquele vulto no gabinete não ter sido, em vigília, em nenhum instante tematizado a sério. E, afinal, havia de fato alguém na sala anexa? Não estarei eu ficando louco, mesmo...? — a barriga gelou. Já não tão conscientemente, Isaac conjeturou a possibilidade de ter distorcido as coisas após o Sr. Alexandre lhe ter expulsado — pois é certo que Sr. Alexandre fazia isso, antes de a figura aparecer. E ela... Que loucura, esse boneco... — o boneco agora dava cambalhotas e, de vez em quando, parava para acenar a algumas figuras sinistras que apareciam ao redor. Tudo parecia a cidade antiga, a cidade alta — mas as pessoas eram todas da cidade baixa; Isaac reconheceu Seu Mendonça junto com a pirralhada. O boneco agora acenava para Isaac — ou o que quer que fosse Isaac naquele sonho. Ele se sentia ele mesmo, pequeno, magro, frágil como o pariazinho que é. O boneco acenava, o que — talvez pela magreza — lhe lembrava alguém, alguém que devia estar ali, na cidade antiga, junto com todo mundo. Serei eu este infeliz? — e por que infeliz, se o boneco, por alguma razão, parece sempre estar feliz? O boneco não tinha rosto, mas parecia sorrir para Isaac, um sorriso largo demais, meio assombroso. Ele aproximou-se de Isaac — era mesmo Isaac, ele conseguia se ver agora! — e começou a lhe dizer alguma coisa, quase audível, quase... (Primeiro Sonho, Capítulo III)